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    Silves - Algarve - Portugal

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    Inicio - Fotos da Quinta - História dos figos no Algarve

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    No séc. XVII, o figo continuava a ser "a produção mais certa com que se podia contar" e a "principal riqueza do Algarve". Cerca de 1607, Henrique Fernandes Sarrão (História do Reino

    do Algarve) referia os muitos figueirais em Pêra e Alcantarilha e apresentava a Mexilhoeira da Carregação como principal porto de exportação: "Neste lugar se carregam todos os anos

    muitos navios e naus para o reino e fora dele, que rende muito. Estiveram nele lójeas d'El Rei em que o figo se agasalhava para daí embarcar".

    O responsável pela organização do comércio do figo era um corretor nomeado pela câmara de Silves e cujas funções estavam definidas no "Regimento da Corretagem da Mexilhoeira da Carregação" (1708-1709) que esteve em vigor até finais do séc. XVIII. Em resumo: "os mercadores declaravam os motos da fruta ao corretor. O moto era o preço pelo qual o mercador se comprometia a fazer a compra do figo à peça (duas arrobas). Era anunciado a partir de 15 de Setembro em Lagoa, Alcantarilha e Algôs. Se algum mercador subisse a oferta todos tinham

    de o acompanhar. Os corretores tinham obrigação de evitar conluios entre os lavradores e os vendedores.

    No tempo da carregação, os almocreves só podiam comprar 4 peças de figo". Todavia, a ganância de alguns levou à prática frequente de falsificação da qualidade do figo, o que motivou uma intervenção do bispo do Algarve, D. Francisco Gomes do Avelar que fez publicar, em 1804, uma pastoral sobre esse problema: "Muitos tempos há que vivemos cheios de amargura, sabendo que entre outros muitos males que perdem as almas, que o Supremo Pastor nos entregou, é um o da falsificação do figo que o mesmo Senhor foi servido dar a este Algarve, favor que não concedeu a outras províncias do reino (...)". Recomendava o prelado aos párocos que pregassem aos fiéis nos meses de Julho, Agosto e Setembro, e que "evitem todo o engano, falsificação e roubo", "não misturar as qualidades, não os enceirar húmidos", etc. De pouco terão valido as advertências do bispo, porque as fraudes continuaram e a câmara de Silves estabeleceu multas para os falsificadores:

    "Toda a pessoa que vender figo enceirado e for achado em fraude, no peso ou na qualidade, apresentando-se como figo de comadre o figo marchante, ou como figo de boa seca o de agua ou chocho, já metendo nas ceiras algum objecto estranho, para aumentar o peso, ou cometendo alguma semelhante falcatrua, incorrerá em uma multa equivalente ao valor de uma arroba de figo comadre, segundo o preço então corrente, e isto por cada ceira, em que se encontrar a fraude, e o comprador que conhecendo o engano não for logo denunciá-lo,

    incorrerá na mesma pena". (art. 61 das "Posturas Municipais do Concelho de Silves", 1855). As penalizações tiveram o mérito de atenuar um pouco as fraudulentas práticas e o comércio

    do figo manteve-se próspero durante todo o séc. XIX.

    Em 1891 foi mesmo criada uma parceria para exportação de figos do Algarve, por um grupo de ricos comerciantes da região, entre os quais José Libânio Gomes, pai de Manuel Teixeira

    Gomes. A sua família tinha uma importante ligação com o estrangeiro a nível comercial, exportando produtos para a Holanda, Bélgica e França. A parceria durou poucos anos, mas outros comerciantes continuaram a desenvolver a lucrativa actividade exportadora.

    Segundo dados publicados pelo IROMA, o Algarve, durante a I Guerra Mundial (1914-18), chegou a atingir uma média de exportação anual de 8800 toneladas de figos. Só o concelho de Silves produzia cerca de 2500 toneladas.

    Até 1922, a exportação de figos ocupou o primeiro lugar no comércio externo de frutos secos e desidratados. A má qualidade de muitos lotes, devida em grande parte ao ataque das traças, fez com que as exportações decaíssem, sendo mais difícil enfrentar a concorrência dos figos da Turquia.

    Assim, no quinquénio de 1942-46, a exportação média anual baixou para 3150 toneladas, e no período de 1952-56 continuou a descer, sendo exportadas em média 3060 toneladas. 

    A Junta Nacional de Frutas e o Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos Hortícolas do Algarve desenvolveram esforços para solucionar o problema do combate às "traças" e foram criadas condições para o expurgo dos figos em instalações apropriadas, os chamados "fumeiros" (no Algôs e em Alcantarilha, por exemplo).

    Entretanto, tinham sido devidamente regulamentados os tipos e qualidades do figo destinado ao comércio: "Figo Flor, corresponde ao formato de 38 figos, tamanho uniforme, por cada

    500 gramas; Figo Meia-Flor, corresponde ao formato de 39/42 figos, de tamanho uniforme por cada 500 gramas; Figo Mercador, corresponde ao formato de 53/70 figos de tamanho

    uniforme, por cada 500 gramas" (Regulamento da Produção e Comércio das Frutas Secas do Algarve, 1933).

    Em 1953, surgiu uma nova modalidade no comércio do figo, sob a forma de "pasta", ou figo industrial" que era exportado, sobretudo, para os Estados Unidos da América. O negócio dos

    figos secos conheceu novo alento, a par das exportações de miolo de amêndoa e de alfarroba. Os grandes negociantes de frutos secos reuniam-se em Faro, no Café Aliança, às quartas e sábados, das 11 às 18 horas, à segunda feira em S. Bartolomeu de Messines e à terça em Loulé. Nessas reuniões definiam os preços e a urgência dos carregamentos. Um dos

    empresários melhor sucedidos era Teófilo Fontainhas Neto, estabelecido em S. Bartolomeu de Messines e que, no período entre 1957 e 1970 foi o 2º maior exportador de figo.

    Nas décadas de 1961-70 e 1971-80 acentou-se a quebra das exportações, quer do figo seco, quer da pasta de figo. Refira-se que em 1973 se exportaram apenas 147 toneladas de figo e 722 de pasta. Desde então, o valor económico do comércio de figos tornou-se quase insignificante. Em 2009, Portugal exportou somente 84 toneladas, tendo importado 1669.

    Algumas tentativas de reanimação do comércio dos figos secos e dos seus derivados, como por exemplo a Feira dos Frutos Secos de Alcantarilha, não têm tido os resultados ambicionados. E até, para cúmulo do opróbio, é agora frequente encontrarem-se no mercado as tradicionais estrelas de figos "algarvias", confeccionadas com figos da Turquia e amêndoas da Califórnia.

    O que permanece inalterável e de gritante actualidade é o velho provérbio: "Uns comem os figos, a outros rebenta-lhes a boca".